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Comprar ou alugar: a conta que quase ninguém faz até o fim — Criação de Riquezas

Comprar ou alugar: a conta que quase ninguém faz até o fim

Finanças · Investimentos 4 min de leitura por Ricardo Fiorillo

Quase toda discussão sobre isso termina em opinião. Fiz a conta até o fim, e o resultado é menos óbvio — e menos definitivo — do que os dois lados afirmam.

"Aluguel é dinheiro jogado fora." "Financiamento é escravidão de trinta anos." As duas frases são ditas com a mesma convicção, e nenhuma das duas resolve nada.

Então vamos fazer a conta.

A simulação

Imóvel de R$ 400 mil. Duas pessoas com a mesma renda.

A compradora dá 20% de entrada — R$ 80 mil — e financia R$ 320 mil em 30 anos a 10,6% ao ano. Parcela de R$ 2.827.

O locatário aluga um imóvel equivalente por R$ 1.600, investe os R$ 80 mil que não deu de entrada e aplica a diferença de R$ 1.227 todo mês, rendendo 10% ao ano.

R$ 2,4 mi R$ 1,3 mi 0k500k1000k1500k2000k2500k151015202530 Comprou: valor do imóvel menos o que ainda deve Alugou e investiu a entrada mais a diferença anos
Imóvel de R$ 400 mil, entrada de 20%, financiamento em 30 anos a 10,6% ao ano, aluguel de R$ 1.600 e investimento rendendo 10% ao ano. Troque qualquer uma dessas premissas e o resultado vira — é o que a tabela abaixo mostra.

Nessas premissas, o locatário termina com quase o dobro. Mas antes de sair correndo cancelar o financiamento, olhe o que acontece quando se mexe em uma variável de cada vez.

O que faz o resultado virar

Se mudar istoCompradorLocatárioVence
Cenário baseR$ 1,3 miR$ 2,4 miAlugar
Investimento rende 6%a, não 10%aR$ 1,3 miR$ 695 milComprar
Imóvel valoriza 8%a, não 4%aR$ 4,0 minegativoComprar
Juros do financiamento a 8%aR$ 1,3 miR$ 1,27 miComprar
Aluguel a 0,6% do valor do imóvelR$ 1,3 minegativoComprar
Horizonte de 10 anos, não 30R$ 303 milR$ 394 milAlugar

Quatro das seis linhas invertem a resposta. Quem afirma com certeza que uma opção é sempre melhor está escondendo as premissas — ou não fez a conta.

A variável que ninguém coloca na planilha

Repare em dois cenários da tabela onde o locatário termina negativo. Isso não é erro de conta. É uma assimetria estrutural que quase toda comparação ignora:

A parcela do financiamento é fixa em reais. O aluguel sobe todo ano.

No começo, a parcela é quase o dobro do aluguel e o locatário sobra dinheiro para investir. Mas o aluguel é reajustado por índice, e a parcela não. Em algum ponto — normalmente entre o décimo e o décimo quinto ano — o aluguel ultrapassa a parcela, e o locatário passa a consumir a carteira em vez de alimentá-la.

Quanto mais longo o horizonte, mais essa assimetria pesa a favor de comprar.

As quatro perguntas que decidem

1. Você vai ficar quanto tempo? Abaixo de cinco anos, comprar quase nunca compensa: só de custos de transação — ITBI, escritura, registro, corretagem — vão embora perto de 5% do valor, e você paga isso duas vezes, na entrada e na saída.

2. Quanto está a taxa do financiamento? É a variável mais sensível. A diferença entre 8% e 11% ao ano muda a parcela em centenas de reais por mês, todo mês, por trinta anos.

3. Você realmente investiria a diferença? Aqui está o furo mais comum. A conta do locatário só funciona se ele investir os R$ 1.227 todo mês, sem falhar, por trinta anos. Quase ninguém faz isso — e é por isso que, na prática, o financiamento funciona como poupança forçada para muita gente.

4. Quanto vale a estabilidade para a sua família? Não aparece em planilha nenhuma: não ser avisado da desocupação, poder reformar, os filhos não trocarem de escola. Para algumas famílias isso vale a diferença. Para outras, não.

O erro que custa mais que a escolha

Existe um jeito de errar que é pior que escolher a opção "errada": comprometer demais.

Parcela acima de 30% da renda líquida transforma a casa própria em armadilha. Qualquer imprevisto — desemprego, doença, queda de faturamento — vira inadimplência, e a saída custa caro.

Antes de decidir entre comprar e alugar, resolva a ordem: sem dívidas caras quitadas e sem reserva de emergência montada, a resposta é nenhuma das duas. É esperar.

Conteúdo educativo, não é recomendação de investimento nem de crédito. As simulações usam premissas explicitadas no texto; taxas, valorização e rendimento reais variam.

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